O feio não é uma categoria universal. Ele muda conforme a época, a cultura, a religião e os códigos morais de cada sociedade. O filósofo, semiólogo e escritor Umberto Eco sustenta que a feiura foi concebida como o oposto da beleza para desempenhar uma função moral e simbólica na sociedade. Na Idade Média, por exemplo, representava pecado, caos, medo, inferno e desordem. Atualmente, a feiura tem um valor estético próprio. O grotesco, o chocante, o estranho e até o repulsivo podem ser incorporados a diversas áreas criativas e culturais, até se tornarem uma linguagem expressiva.
“O feio é atraente. O feio é excitante. Talvez porque seja novo”: esta frase de Miuccia Prada define bem seu trabalho como diretora criativa, incessantemente associado ao ugly chic pela crítica, justamente por desafiar a ideia “burguesa” da beleza. Outro bom exemplo na moda é a Margiela, com seu sapato Tabi, de biqueira fendida, lançado em 1988, que continua a ganhar reinterpretações até hoje, sendo um dos best-sellers da marca e que, este ano, recebeu uma exposição reunindo itens dos maiores colecionadores de Tabi Margiela
do mundo.
Chamar algo de feio quase nunca descreve apenas uma forma: é também uma fronteira, um desconforto coletivo e um impulso para hierarquizar corpos, objetos e estilos.
Ao mesmo tempo, é culturalmente comum que, aquilo que primeiro é rejeitado como feio frequentemente volte como linguagem de distinção, vide exemplos recentes da cultura pop, como os looks de Justin Bieber e Bianca Censori, namorada de Kanye West. Isso revela uma contradição: a sociedade condena o feio quando surge sem mediação, mas o celebra quando é enquadrado por um repertório, um status ou uma intenção.