Diante de uma realidade cada vez mais automatizada e previsível, o surrealismo contemporâneo deixou de habitar o território do sonho para emergir diretamente da realidade visual hiperestimulada em que vivemos. Não se trata de escapar do real, mas de expandi-lo até o ponto da estranheza. Diferente do surrealismo clássico, ligado ao inconsciente freudiano, o atual é social, performático, corporal, e, mais importante que isso, sem depender necessariamente da inteligência artificial para criar ilusões óticas ou proporções desmedidas.
Na performance de Rosalía em “La Perla”, por exemplo, luz e sombra transformam o corpo em símbolos e imagens fragmentadas ao mesmo tempo. Na instalação Tide of Returns, apresentada pela Ocean Space em Veneza, a paisagem marítima e os movimentos coletivos criam uma sensação quase pós-humana de suspensão do tempo, como se natureza, memória e crise climática coexistissem numa mesma ficção sensorial.
A moda assume um papel importante de fabulação contemporânea. ABODI Transylvania mistura referências folclóricas, místicas e futuristas para criar figuras que parecem sair de contos arcaicos ou sonhos digitais; já o estilista Robert Wun transforma tecido em fantasmas, com braços suspensos pelo além. Na decoração, a italiana La DoubleJ cria objetos e ambientes de excesso quase alucinógenos.