Não é de hoje que a moda se utiliza de cenas cotidianas para elaboração de coleções, campanhas e editoriais. No entanto, se antes essa ferramenta era utilizada como uma maneira de aproximar o público do universo fashionista (que muitas vezes soava distante e exclusivo), hoje em dia ela serve como uma forma de “escapismo” das telas.
Em meio a uma rotina cada vez mais mediada pelo digital, imagens de alguém lendo, tomando sol, abastecendo o carro, almoçando com alguém ou simplesmente lavando a louça, parecem ganhar um novo poder de sedução. Há uma valorização do banal com menos fantasia construída em estúdio.
A Vogue França é um dos veículos que, ao longo do último ano, ilustrou a moda desta maneira mais “desglamurizada”, aproximando-a dos rituais, lugares e pequenos prazeres do cotidiano. Esse desejo também ajuda a explicar por que a moda parece querer sair das telas e até das próprias lojas. Cafeterias, sorveterias, restaurantes, praias e comércios de bairro passaram a ser “encapados” por marcas, transformando experiências absolutamente corriqueiras em extensões temporárias de seus lifestyles. Claro que, em primeiro lugar, é uma jogada de marketing e estratégia comercial. Mas, também não deixa de ser a transformação da marca em um ecossistema de estilo de vida.
Talvez exista aí uma pequena contradição que define bem o momento: quanto mais digital se torna a moda, maior parece ser seu fascínio por tudo aquilo que comprova uma existência fora da tela. Do sorvete que derrete ao sabonete usado, a vida como ela é vem carregada de desejo e o glamour passa a ser encontrado em outros lugares, como no prazer quase nostálgico de fazer coisas comuns.