A moda brasileira é um território fértil para repensar o que entendemos por luxo. Bordados, rendas, trançados, crochês, aplicações, reaproveitamento de materiais e outras manualidades carregam um grau de elaboração, tempo e conhecimento que permite aproximá-las da própria lógica da alta-costura — não como imitação de um modelo europeu, mas como afirmação de outro sistema de valor.
Mais do que isso, as manualidades têxteis ancestrais estão fugindo a estética nostálgica e sendo aplicadas em brilhos, silhuetas experimentais, volumes dramáticos, cores intensas e combinações inesperadas. É justamente nesse encontro que a moda nacional revela uma sofisticação particular, muitas vezes próxima ao CAMP, por ser exuberante, teatral, bem-humorada e orgulhosamente “demais”.
A brasilidade, afinal, é um terreno especialmente receptivo para o CAMP através da nossa cultura popular, festas, gambiarra e uma capacidade muito própria de transformar escassez em espetáculo. Ney Matogrosso e Gaby Amarantos, por exemplo, celebram cores, brilhos e volumes sem pedir licença ao bom gosto convencional; o ator Silvero Pereira encontra na performance e na cultura popular nordestina um território em que personagem, corpo e roupa dificilmente podem ser separados. Na moda, a Teroy 13 participa dessa mesma conversa ao aproximar manualidade, identidade brasileira e uma linguagem ornamental, dramática e humorada.
Essa conversa ganha uma nova dimensão com o novo álbum de Anitta, que volta seu olhar para referências brasileiras e ajuda a colocar no circuito global uma estética que há muito existe longe dos centros tradicionais da moda e da cultura pop. Uma das chaves para compreender a força da moda brasileira contemporânea é perceber que inovação não significa abandonar o que veio antes, mas enxergar o ancestral com novos olhos. Dos papangus às passarelas, da manualidade ao pop, regenerar também é radicalizar e o luxo brasileiro pode ser artesanal, irreverente, sustentável, popular e deliciosamente CAMP.